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terça-feira, 1 de maio de 2018

A DUALIDADE DO MASCULINO E FEMININO EM O MUNDO SE DESPEDAÇA


Resumo
As noções de masculino e feminino tem pautado os padrões pré-estabelecidos pela sociedade ocidental, na qual os gêneros se tornam um protótipo ideal, uma ideia formatada de identidade e comportamentos em que seres afins devem assumir por meio de performances dentro das relações sociais. Tomando essa afirmação como base, o presente trabalho pretende examinar a dualidade masculina e feminina em dois personagens específicos (Nowye e Enzimna) do romance O mundo se despedaça (Things Fall Apart – 1958), visto que nessa obra, seu escritor, Chinua Achebe, adensa o debate colonialista e cultural ao inserir a questão de gênero, assinalando o papel social e cultural de homens e mulheres na tribo nigeriana ibo. Nesse sentido, esse trabalho procura identificar a formação ideológica das identidades de gênero, ao problematizar o que é o masculino e o feminino, cujos conceitos oferecem representações do gênero como aspectos identitários. Para tal, o debate pós-colonial norteará o debate de gênero e a dualidade masculina e feminina, na hipótese das práticas culturais como formadoras dos gêneros e suas identidades.
Palavras-chave: Gênero, identidade, cultura, dualidade.

Considerações iniciais

O presente trabalho é parte da pesquisa de Mestrado, ainda em andamento, no Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural, cujo título é “Things fall apart: transposições culturais do texto literário para a reescrita cinematográfica”. Desde o período da graduação, desenvolvi interesse em trabalhar com literaturas africanas em língua inglesa, que é o caso do presente objeto de pesquisa, o romance O mundo se despedaça (Things fall apart - 1958), livro de estreia do aclamado escritor nigeriano Chinua Achebe, escrito quando o autor ainda era um jovem de vinte anos e descreve de maneira vívida o cotidiano por meio das tradições orais e das práticas culturais da tribo ibo, bem como as consequências nefastas da invasão colonialista britânica na Nigéria. A obra, que reforça o debate teórico-crítico a respeito das transformações ocorridas na sociedade advindos dos processos de colonização, tornou-se um marco na literatura moderna nigeriana e uma espécie de magnum opus no movimento literário contemporâneo denominado “literatura pós-colonial”, apresentando ao mundo a complexidade e a diversidade cultural dos povos que habitam uma região do continente africano, ao mesmo tempo em que coloca em xeque uma longa tradição narrativa eurocêntrica de representações negativas e depreciativa desses povos.

O mundo se despedaça, destaca o papel social e cultural de homens e mulheres durante um período um tanto conturbado e não apenas expõe ao mundo os meandros de uma sociedade considerada “selvagem e primitiva” pelos europeus, mas de forma literária, assinala a maneira pela qual as guerras e as disputas de poder tanto internas quanto externas interferem e afetam a formação da identidade cultural de um grupo. Dentre os vários temas e questões abordadas no romance em foco, chama-se a atenção a tese de que a emergência e o projeto “civilizatório” das nações europeias resultaram a rigor no declínio, quando não o extermínio dos aspectos culturais de outros povos. Mesmo quase sessenta anos após a sua publicação, lançado dois anos antes da Independência da Nigéria, O mundo se despedaça ainda suscita uma série de questões acerca da intolerância e da dificuldade dos povos e compreenderem e aceitarem as diferenças culturais entre si, e propõe uma reflexão sobre as relações de poder não apenas entre colonizadores e colonizados, mas das questões de gênero e do papel da mulher na estruturação social nigeriana.

Nesse sentido, cabe informar que este trabalho é uma pesquisa bibliográfica, visto que ele será desenvolvido sob o embasamento teórico de Thomas Bonnici (2000, 2003) que norteia o debate pós-colonial e suas relações com as produções culturais e literárias, ao passo que Homi Bhabha (1986) fundamenta a noção de que os gêneros são constituídos por meio de práticas culturais. Judith Butler (2015) e Romeu Gomes (2008) reforçam o debate de gênero, que alicerçam o conceito da dualidade masculina e feminina. Sob a perspectiva exploratória e explicativa, retomo que, o principal objeto da pesquisa é a obra O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, tendo como finalidade explorá-lo, dando ênfase a dualidade do masculino e feminino, constatadas em Enzimna e Nowye, dois dos filhos de Okonkwo, o personagem principal. Este trabalho objetiva abordar as particularidades do masculino e feminino, sob a conjectura de ambos enquanto produtos de uma construção sociocultural, que buscam determinar a formação ideológica das identidades de gênero. Busca-se problematizar o que é o masculino e o feminino, cujos conceitos oferecem representações do gênero como aspectos identitários.

Salienta-se que esta produção está dividida em 3 partes, sendo que a primeira é um breve esclarecimento sobre o período Pós-colonial, as influências literárias e sociais da época assim como do próprio Achebe. A segunda parte apresenta como a tradição oral transpassava as ideias dos padrões pré-estabelecidos dos gêneros, dentro do grupo ibo. A terceira e última parte, seguida das considerações finais, discute a questão da dualidade homem/mulher, e como os estereótipos de cada gênero são instituídos na contemporaneidade, dando espaço às considerações finais, que ratificam, homens e mulheres enquanto indispensáveis, e no mesmo nível, dependentes de um para com o outro.

[...]

Este artigo foi apresentado na modalidade comunicação no V Enlaçando Sexualidades, na cidade de Salvador, Bahia. Para ler mais sobre ele, é só clicar nesse link: 


Como devo referenciar esse artigo?
TELES SILVA, Ilauanna. A dualidade do masculino e feminino em O mundo se despedaça. V. 1, 2017, ISSN 2238-9008. Disponível em: http://www.editorarealize.com.br/revistas/enlacando/trabalhos/TRABALHO_EV072_MD1_SA16_ID1175_16072017133133.pdf.

sábado, 8 de outubro de 2016

Soneto XVIII - Shakespeare (Versão em Português)



Olá meus queridos dialéticos.


No dia 16 de abril desse ano fiz uma postagem sobre o Soneto XVIII do Shakespeare, que foi uma crítica feita ainda quando eu estava na faculdade, em meados de 2008. A publicação foi em inglês, porque uma das exigências do curso essa escrevê-lo nessa língua. Coloquei uma a ferramenta de tradução, mesmo assim muita gente não conseguiu utilizar. Logo, segue a mesma publicação aqui, só que dessa vez em Língua Portuguesa. Se quiser conferir a publicação original clica aqui.


É importante salientar que, a crítica do soneto só faz sentido utilizando a versão original em inglês, pois alguns elementos sofrem alterações na tradução, como por exemplo, no primeiro verso, que deixa de ser uma pergunta quando traduzido ao português, na maioria de suas versões a nossa língua. No entanto encontrei uma versão, feita por Carlos de Oliveira, que se aproxima bastante do original, e é essa versão que utilizo abaixo. Cabe ao leitor se lembrar, que muitos termos desse soneto não existem no nosso idioma tanto porque a escrita dessa obra é extremamente antiga - afinal estamos de Shakespeare! O inventor de muitas palavras inglesas. - quanto porque é comum a inexistência de variantes de uma língua para outra.

Soneto XVII
Por William Shakespeare


Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;

E, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.


O poema analisado trata-se do Soneto XVIII de William Shakespeare, escrito por volta de 1599. O foco desta análise será em metáfora e métricas. De acordo com Scholes (1991):


A palavra "metáfora" é usado tanto como termo geral de todos os tipos de ligação poética de imagens e ideias, e prazo mais específico para tal ligação quando a coisa e as imagens não apresentado como uma analogia direta (A é como B), mas por (A é B - ish, ou a B do; Albert é um cão ou Albert latiu para mim)

Metáfora, é uma figura de linguagem utilizada quando dois nomes, ideias ou conceitos são comparados uns aos outros, mas também é importante lembrar que ele não pode ser confundido com uma outra figura de linguagem semelhante, a simile porque, ao contrário dela, na metáfora a palavra "como" não é utilizado na comparação .

O Soneto XVIII é composto por versos curtos, tem três quartetos e um dístico final, as pontuações presentes são: vírgula (,), ponto e vírgula (;), ponto (.) , ponto de interrogação (?) e dois pontos (:), e suas sílabas poéticas são pentâmetro iâmbico (uma métrica que determina um ritmo em que as palavras são organizadas em poesias e dramas) com um esquema de rimas abab cdcd efef gg como será mostrado a seguir com excertos do soneto. Os sonetos de Shakespeare podem ser categorizado em termos de conteúdo como tal: 01-126 são dirigidas a uma pessoa jovem e sem nome, a "Jovem Formosa"; e entre os sonetos 18 -126 um amor mais lírico é descrito.

Ao acompanhar o soneto, é possível perceber a presença da metáfora. Um exemplo de dela pode ser encontrado no primeiro verso, quando o escritor compara os jovens a um dia de verão, isso é feito através de um ponto de interrogação. No entanto, a juventude no segundo verso é mais perfeita do que o dia de verão; ela é chamada de mais linda e mais temperada. O terceiro verso fala sobre os ventos ásperos de Maio, e é importante dizer que maio foi considerada a época de de verão no hemisfério Norte, onde Shakespeare reservou para escrever esses versos, o que é reafirmado no primeiro verso. No último verso do primeiro quarteto, há uma metáfora sobre como o “contrato” do verão que está em um curto espaço de tempo, ou seja, esta acabando.

1º quarteto:

Comparar-te a um dia de verão?  a
Há mais ternura em ti, ainda assim: b
um maio em flor às mãos do furacão, a
o foral do verão que chega ao fim b


1º quatrain:
Shall I compare thee to a summer’s day? a
Thou art more lovely and temperate: b
Rough winds do shake the darling buds of May, a
And summer’s lease hath all too short a date: b
 
 
No segundo quarteto a metáfora é do “sol como um olho do céu” e seu brilho é comparado ao ouro. Este anuncia como verão pode ser imperfeito, uma vez que é extremamente quente, ao mesmo tempo que possui um valor numa determinada medida. Na sétimo verso, é afirmado que toda a beleza das coisas podem sair do seu estado de beleza por mudanças naturais ou acidentais. No oitavo verso, a falta de decoração é apresentada com a palavra untrimmed , o que talvez seja uma referência a beleza citada no sétimo verso.
 



2º quarteto:

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; c
outras, desfaz-se a compleição doirada, d
perde beleza a beleza; e o que perdeu  c
vai no acaso, na natureza, em nada  d



2º quatrain:
Sometimes too hot the eye of heaven shines, c
And often is his gold complexion dimm’d: d
And every fair from fair sometime decline, c
By chance, or nature’s changing course untrimm’d; d

No terceiro quarteto, quando o falante diz, but they eternal summer shall not fade (, metaforizou-se que a beleza e perfeição da juventude é para sempre. No verso dez ow'st é uma palavra reudizida para ownest, que significa possuir, nesse caso, a posse da beleza eterna. No décimo primeiro verso, é afirmado que a vida não pode ser exigido pela morte, e no último verso deste mesmo quarteto, Shakespeare desenvolve um status eterno que poderia até ser imortalizada, porque "linhas eternas" se refere às linhas imortais deste soneto. Nesse mesmo verso, há uma personificação quando o escritor diz nor shall death brag, logo, ele deu características humanas aos ideais abstratos.


3º quarteto:
Mas juro-te que o teu humano verão  e
será eterno; sempre crescerás  f
indiferente ao tempo na canção;  e
e, na canção sem morte, viverás: f




3º quatrain:
But they eternal summer shall not fade, e
Nor lose possession of that fair thou ow’st, f
Nor shall death brag thou wander’st in his shade, e
When in eternal lines to time thou grow’st; f


No dístico final, que é a parte que considerada mais fácil a ser entendida, pois firma-se que enquanto o homem viver, ele poderá dar vida à poesia e poesia poderá dar vida ao homem, que através da poesia que irá vai viver. De certa forma, esses dois versos são um grande resumo de tudo o que foi dito anteriormente no poema, mas que lá atrás o leitor não poderia chegar sozinho a esse entendimento, sabe-se apenas que há uma comparação a pessoa amada e um dia de verão, e que a ênfase que é dada no início, muda quando o novo tema é dado para categorizar a poesia como uma entidade imortal.
Dístico final:

Porque o mundo, que vê e que respira, g
te verá respirar na minha lira. g



Final Couplet:
So long As men can breath, or eyes can see, g
So long lives this, and gives live to thee. g


 
Falaremos agora sobre a Métrica, que é outro aspecto que pode ser abordado neste poema. Antes de mais nada, é necessário saber que a métrica é a responsável pela sonoridade de determinadas palavras tomam, tornando a obra ritmizada. Os termos destacados abaixo mostram as palavras tônicas e não tônicas. Mais uma vez sabe salientar que essa métrica só pode ser identificada na obra escrita em sua língua original, o inglês, uma vez que será levado em conta a rima das palavras. De acordo com Scholes:
Métrica tem a ver com todo ritmo que afeta a poesia. Na versificação do Inglês, isto significa que é uma questão de acentos e pausas. O foco é determinado pelos princípios gramaticais habituais que regem a nossa fala e escrita, e são indicadas por símbolos habituais gramaticais: pontos, vírgulas e assim por diante. Mas um fator novo é adicionado. O fim de uma linha de verso é em si um sinal de pontuação.

Métrica do Soneto XVIII


O Soneto XVIII é o mais citado de todos os escritos de Shakespeare. É muito provável que seja devido a sua complexidade, elegância e características memoráveis. Apesar do fato de que foi escrito há muito tempo, ele ainda está "vivo" até agora como Shakespeare desejava. É um poema que pode ser apreciada por homens e mulheres, assim, cada palavra é revivida. Em suma, realiza-se o desejo Shakespeariano na frase So long as men can breathe, or eyes can see, is the most important reason for making it eternal. (Enquanto os homens respirarem, ou os olhos enxergarem, esta é a razão mais importante para torná-lo eterno - Tradução minha)
Veja a métrica (não tem como fazer isso em português):


Sonnet XVIII

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:

Sometimes too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d:
And every fair from fair sometime decline,
By chance or nature’s changing course untrimm’d;

But they eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st,

So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and gives live to thee
.
                                       






Bibliografia

GAMBER, Garry. Shakespeare's Sonnet XVIII, Shall I Compare Thee to a Summer's Day? Disponível em: http://ezinearticles.com/?Shakespeares-Sonnet-XVIII,-Shall-I-Compare-Thee-to-a-Summers-Day?&id=32833. Acesso em 21 fev. 2008 às 23h12min.

POESIA, Arnaldo. Arte poética. Disponível em: http://www.starnews2001.com.br/sonnets.html. Acesso em 03 mar. 2009 às 14h14min.

SCHOLES, Robert. The elements of literature: Essay, Fiction, Poetry, Drama, Film: New York: Oxford University Press, 1991.
 
SHAKESPEARE, William. Obra completa. Traduzido por Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S.A., 1995.






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